“Vivo isto muito intensamente”
Depois de sobreviver à Covid-19 e de escapar ileso a um acidente de automóvel, Cláudio Passos encontrou na fé a inspiração para criar um terço oferecido ao Papa Francisco. Nesta entrevista, o mestre ourives fala desse projeto, da paixão pela profissão e do percurso que marcou a sua carreira.
Como surgiu a ideia de fazer o terço para oferecer ao Papa Francisco?
Estou cá por milagre. Tive Covid, estive ligado à máquina, e já tinham dito ao meu filho e à minha mulher que eu não me safava. Mesmo assim, enquanto estava deitado naquela cama, comecei a pensar na coroa de Nossa Senhora de Mafra. Sabia que ia ser concebida uma, porque só existem a do Sameiro e a de Fátima. O meu filho dizia “pai, preocupa-te é com a doença”. E eu: “traz-me papel, traz-me lápis, tenho aqui ideias”.
E foi assim que começou o projeto.
Já tinha feito antes uma coroa que está no Brasil e que não deixaram voltar para Portugal. Um dia apareceu um rapaz na oficina a dizer que queria uma coroa e trouxe-me o desenho de um diadema chinês. Eu disse-lhe que aquilo não era coroa nenhuma, mas que podia fazer uma. E fiz. Depois tive um acidente de carro que ainda hoje não percebo como aconteceu… tirei as mãos do volante, o carro parou, e eu não sofri nada, nem o carro. A partir daquele momento senti que tinha mesmo de fazer aquela peça.
A peça foi o maior marco da sua carreira?
Isso é uma grande história. Eu tenho histórias que dava para escrever um livro. O que me importa é que a ourivesaria portuguesa seja falada lá fora. Todos os custos desta peça foram suportados por mim, não tive apoios nenhuns. Senti que foi uma forma de agradecer a Deus, por ter escapado ileso ao acidente e à Covid-19.
O que destaca na ourivesaria nacional?
O que mais me custa é a inveja dentro desta área. Depois de ter feito a peça, vieram dizer-me que tinha lá elementos que eram um apelo ao Diabo. Era o símbolo da paz! Mas, de parvo não tenho nada. Fui às igrejas aqui da zona, mostrei a peça e as pessoas ficavam maravilhadas. Entristece-me este tipo de atitudes, mas pronto…
Sente-se orgulhoso da sua carreira?
Claro, eu vivo isto muito intensamente. A minha mulher, falecida recentemente, dizia que eu me dedicava mais a isto do que ela. E é verdade. Já fiz algumas peças em memória dela. Isto ainda está muito fresco.
Com 76 anos, quer continuar até as mãos o deixarem?
As minhas mãos já não são as mesmas, mas não quero parar. Estou sempre com ideias novas, sempre motivado.
Leia a entrevista completa na edição 104 da JoiaPro.
10 de Julho, 2026
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