Maria João Costa: “O ‘design’ tornou-se um fenómeno global”

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“O ‘design’ tornou-se um fenómeno global”

O estado actual do ‘design’ de ourivesaria revela-se nas palavras de Maria João Costa. A reconhecida ‘designer’ portuense aborda os processos industriais e comerciais que regem a criatividade na elaboração de jóias. Em entrevista à JóiaPro, a professora universitária fala também na relação do ‘design’ com a jóia de autor e com a ourivesaria tradicional.


 


JóiaPro • O ‘design’ de ourivesaria ganha terreno em Portugal?
Maria João Costa • Sem dúvida. O trabalho conjunto de várias instituições e a criação de cursos de pós-
-graduação e mestrado sobre a matéria ajudam à implementação do ‘design’ de ourivesaria junto da nossa indústria. A aposta numa formação específica começa agora a gerar os seus frutos e, por norma, os empresários fazem questão de trabalhar com ‘designers’ portugueses.



JP • Existe uma definição para o ‘design’?
MJC • O ‘design’ tornou-se num fenómeno global que explora todas as áreas e respectivas técnicas e materiais. Cada vez mais os empresários olham para o ‘design’ como ponto de partida para atingir um novo público/mercado, resultando assim dos seus produtos a criação de novas necessidades no consumidor. Esta metodologia funciona como uma disciplina e pode aplicar-se a todas as culturas, despertando a consciência entre o que está feito e o que poderá vir a fazer-se.



JP • Quer dizer que o ‘design’ está em todo o lado?
MJC • O ‘design’ situa-se entre a produção e o consumo. Assenta muito mais no planear do que no fazer, segundo determinadas orientações, as quais apelidamos de tendências. Considera-se que o ‘design’ se rege por três pilares fundamentais, nomeadamente a função, a identidade e a estética. Por ser de tal forma abrangente, não pode nem deve encarar-se como um espaço em que tudo é permitido.


 


JP • Como se distingue o ‘design’ de ourivesaria da jóia de autor?
MJC • O ‘design’ de ourivesaria resulta numa produção em série, ao passo que a jóia de autor, como o próprio nome indica, nunca será reproduzida em quantidades suficientes de forma a distribuir-se e/ou a poder satisfazer um mercado. Esta constituirá, no máximo, uma série limitada, numerada ou não, e certamente assinada, fazendo-a oscilar entre o conceito de jóia
e de obra de arte. Um criador pode sempre considerar–se um ‘designer’ do seu próprio tempo que, através da sua formação abrangente, torna possível a materialização de uma ideia em qualquer tipo de matéria-prima. Para isso, tem de reunir conhecimentos técnicos e estéticos. Desta fusão nasce a jóia de autor, que não responde às necessidades de mercado, tal como o ‘design’ de joalharia, mas somente à necessidade do seu próprio criador, a de existir e de ser reconhecida como tal.


 


JP • Estas duas correntes são antagónicas à ourivesaria tradicional?
MJC • O ‘design’ de ourivesaria e a ourivesaria tradicional portuguesa têm coabitado em diferentes proporções no nosso mercado. Nesse sentido, impõe-se gradualmente o ‘design’ de ourivesaria, que
se baseia em desenhos com linhas mais simples, superfícies mais longas e maior leveza. Assim sendo, este ‘design’ resulta de múltiplas influências e tradições, mas também dos gostos e das motivações dos consumidores. A conjugação de técnicas tradicionais e recentes contribui para um apurar do objecto, ou seja, permite materializar mais facilmente um
determinado conceito. Esta forma de trabalhar em nada impede que o ‘design’ de ourivesaria e a jóia de autor ocupem um espaço importante no nosso mercado. Muito pelo contrário, poderá um dia servir para realizar a ponte entre o que temos de melhor na nossa herança cultural e aquilo que poderá vir a ser o futuro da ourivesaria portuguesa.

18 Dezembro 2009
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